Uma cobertura de vidro com vista para Seul. Um apartamento tão pequeno que a cama praticamente encosta na cozinha. Uma casa antiga em uma rua estreita. Um quarto no terraço de um prédio. Uma enorme residência cercada por jardim e funcionários.
Quem assiste a muitos doramas começa a perceber que essas escolhas dificilmente são aleatórias.
Antes mesmo de um personagem explicar quanto ganha, de qual família veio ou como está sua vida, a casa onde ele mora frequentemente já contou uma parte dessa história.
Isso acontece porque os doramas aproveitam uma característica bastante concreta da Coreia do Sul: o país reúne tipos de moradia muito diferentes em espaços urbanos relativamente próximos. Mas também existe uma decisão narrativa. Cenógrafos, diretores de arte e equipes de locação podem transformar arquitetura, móveis, luz, tamanho dos cômodos e até a posição de uma casa na cidade em informações sobre os personagens.
Por isso, entender essas moradias ajuda a enxergar detalhes que às vezes passam despercebidos.
O apartamento enorme do herdeiro não serve apenas para mostrar riqueza

O exemplo mais fácil de reconhecer é o protagonista de família rica.
Doramas com chaebols, executivos ou herdeiros frequentemente colocam esses personagens em coberturas, apartamentos luxuosos ou grandes casas individuais. Ambientes com pé-direito alto, grandes janelas, poucos móveis cuidadosamente escolhidos, iluminação sofisticada e muito espaço vazio aparecem com frequência.
A riqueza é a leitura mais evidente, mas o cenário pode comunicar outras coisas.
Uma sala gigantesca ocupada por uma única pessoa também pode reforçar isolamento. Uma mesa de jantar para dez pessoas onde quase ninguém se reúne diz algo diferente de uma cozinha apertada em que uma família inteira prepara comida junta.
É por isso que duas casas igualmente caras podem transmitir sensações completamente diferentes.
Em histórias sobre famílias empresariais, a residência também pode funcionar como extensão da hierarquia familiar. Existem quartos separados, escritórios particulares, enormes salas de reunião e espaços nos quais personagens precisam praticamente pedir permissão para entrar.
A casa deixa de ser simplesmente o lugar onde alguém dorme. Ela se torna parte do poder exercido naquela família.
E existe outro motivo prático para tantas residências luxuosas aparecerem: visualmente, elas ajudam o espectador a identificar imediatamente um personagem de outro nível econômico, sem que o roteiro precise parar para explicar seu patrimônio.
O apartamento pequeno do protagonista jovem também tem uma lógica

No outro extremo estão os personagens que vivem sozinhos em espaços compactos.
Na Coreia do Sul, existem diferentes formas de moradia que podem parecer apenas “apartamentos pequenos” para quem assiste de fora.
Uma delas é o one-room, semelhante a uma quitinete ou estúdio: quarto, sala e cozinha ficam praticamente no mesmo ambiente. Esse tipo de residência é comum entre estudantes e jovens que começaram a viver sozinhos.
Há também os officetels, nome criado pela combinação de “office” e “hotel”. Eles surgiram originalmente como espaços que permitiam trabalhar e permanecer no mesmo prédio, mas passaram a ter forte utilização residencial. Muitos estão localizados perto de centros comerciais e áreas bem conectadas ao transporte público.
É fácil entender por que esse tipo de lugar funciona tão bem nos doramas.
Um personagem de vinte e poucos anos que conseguiu o primeiro emprego, saiu da casa dos pais ou está tentando construir a própria carreira parece muito mais coerente vivendo em um estúdio compacto do que em uma enorme casa independente no centro de Seul.
O tamanho também favorece a narrativa.
Em uma residência pequena, cama, mesa, cozinha e porta de entrada podem aparecer no mesmo enquadramento. Para uma comédia romântica, isso permite encontros constrangedores, visitas inesperadas e cenas domésticas muito mais íntimas.
A própria limitação do espaço vira parte da história.
E aquela “villa” que não parece uma mansão?

Existe ainda uma pequena armadilha de tradução.
Quando um dorama menciona uma villa, o espectador brasileiro pode imaginar uma casa enorme e luxuosa.
Na Coreia, a palavra villa costuma ser utilizada para edifícios residenciais menores e mais baixos, normalmente bem diferentes dos grandes complexos de apartamentos.
São justamente aqueles prédios que aparecem com frequência em bairros de ruas estreitas, pequenas escadas externas e residências bastante próximas umas das outras.
Esse tipo de cenário é ótimo para histórias em que os vizinhos se conhecem.
O personagem sai de casa e imediatamente cruza com alguém. As portas ficam próximas. É possível conversar na escada, encontrar o proprietário do imóvel ou perceber quem chegou tarde.
A arquitetura facilita uma sensação de comunidade que seria muito diferente em uma torre residencial moderna com dezenas de andares.
Lutando pelo Meu Caminho (Fight for My Way) aproveitou muito bem essa lógica.
Dong-man, Ae-ra, Joo-man e Seol-hee vivem próximos, e boa parte da identidade da série vem justamente desse cotidiano compartilhado. A chamada Namil Villa e os espaços ao redor fazem com que aqueles personagens pareçam viver dentro do mesmo pequeno mundo.
Não é apenas pano de fundo. A proximidade física ajuda a sustentar a proximidade entre eles.
Por que tantos personagens vão parar no terraço?

Existe outra moradia que provavelmente qualquer fã de doramas já encontrou: a pequena casa construída no topo de um prédio.
Ela é conhecida na Coreia como oktapbang, ou quarto/casa de cobertura.
Mas não pense em “cobertura” no sentido brasileiro de um imóvel de luxo.
Historicamente, muitas dessas pequenas construções surgiram nos terraços de edifícios e acabaram adaptadas para moradia. Elas costumam ser menores e mais baratas do que apartamentos convencionais, além de poderem apresentar problemas de isolamento térmico: muito quentes no verão e muito frias durante o inverno.
Por isso, tornaram-se associadas principalmente a pessoas que procuram aluguel mais acessível, incluindo jovens.
Nos doramas, porém, o oktapbang ganhou uma segunda vida.
O interior pode ser modesto, mas basta abrir a porta para aparecer um enorme terraço e o horizonte da cidade.
É uma combinação cinematográfica quase irresistível.
O personagem não tem muito dinheiro, mas possui um lugar onde pode conversar olhando para as luzes de Seul ou Busan. Amigos bebem juntos. Casais se aproximam. Alguém sobe até o terraço quando precisa ficar sozinho.
O espaço consegue representar dificuldade econômica sem transformar o personagem apenas em sofrimento.
Outra vez, Lutando pelo Meu Caminho oferece um exemplo fácil de reconhecer. O terraço usado pelos personagens se tornou um dos espaços mais lembrados da produção justamente porque funcionava como ponto de encontro, conversa e descanso.
A paisagem fazia parte da cena.
Morar embaixo da rua conta uma história completamente diferente

Se o terraço coloca o morador acima da cidade, existe uma residência que faz exatamente o contrário.
O banjiha é uma moradia parcial ou semissubterrânea.
Parte do imóvel fica abaixo do nível da rua, normalmente com pequenas janelas próximas à calçada.
Esse tipo de habitação ganhou enorme reconhecimento internacional com o filme sul-coreano Parasita, que utilizou de maneira muito direta a diferença de altura entre as residências como representação das desigualdades entre seus personagens.
Mas o banjiha não foi criado pelo cinema.
Essas residências realmente fazem parte da paisagem urbana coreana e estão relacionadas ao acesso mais barato à moradia. Os problemas podem envolver pouca iluminação, umidade e vulnerabilidade a enchentes.
Por isso, quando uma produção coloca deliberadamente alguém em um semissubsolo, é importante observar o contexto.
A posição da casa pode estar dizendo algo sobre a situação econômica daquele personagem antes mesmo do diálogo começar.
Arquitetura também pode funcionar como narrativa vertical: alguns personagens observam a cidade do alto; outros enxergam apenas os pés das pessoas passando pela janela.
Apartamentos comuns talvez sejam a parte mais realista dos doramas

Entre mansões cinematográficas e minúsculos quartos, existe um tipo de moradia muito mais presente no cotidiano sul-coreano: os grandes complexos de apartamentos.
Eles fazem parte da paisagem de praticamente todas as grandes cidades do país.
São aqueles conjuntos formados por várias torres residenciais semelhantes, frequentemente cercados por estacionamentos, áreas de convivência, lojas, escolas e outros serviços nas proximidades.
Por serem tão comuns, funcionam nos doramas quase como um sinal de normalidade.
Famílias de classe média, casais com filhos, funcionários de empresas e diferentes gerações podem morar nesses edifícios.
Curiosamente, isso significa que o apartamento que parece “sem personalidade” para o espectador estrangeiro pode ser justamente o cenário mais próximo da vida residencial cotidiana apresentada pela série.
E pequenos detalhes passam a importar mais.
O tamanho da unidade, a localização do complexo, os móveis, a decoração e até a vista da janela conseguem diferenciar famílias que externamente parecem morar no mesmo tipo de prédio.
Quando surge um hanok, a escolha costuma ter significado

As casas tradicionais coreanas, conhecidas como hanok, oferecem outra linguagem visual.
Madeira, pátios, telhados característicos, portas e janelas tradicionais criam imediatamente uma atmosfera diferente da encontrada nos modernos edifícios de Seul.
O hanok nasceu de soluções arquitetônicas adaptadas ao clima coreano. Entre seus elementos conhecidos está o ondol, sistema tradicional de aquecimento do piso.
Hoje existem tanto construções preservadas quanto hanoks reformados e adaptados às necessidades modernas.
Nos doramas contemporâneos, colocar um personagem em uma residência desse tipo pode estabelecer ligação com tradição, história familiar ou simplesmente criar contraste com a Seul dos arranha-céus.
Mas é preciso evitar uma leitura automática.
Nem todo hanok significa “família tradicional”, assim como nem todo personagem em uma cobertura é emocionalmente frio. O significado depende da história.
O interessante é perceber quando a produção escolheu aquele espaço porque poderia ter usado qualquer outro — e não usou.
Algumas casas dos doramas nem sequer são casas

Esse talvez seja um dos detalhes mais interessantes.
Aquilo que vemos como a residência perfeita de um personagem pode ser uma combinação de locais completamente diferentes.
O exterior pode pertencer a um prédio real. O interior pode ter sido construído em estúdio. Um corredor pode estar em outra propriedade. A janela pode mostrar uma paisagem inserida posteriormente.
Goblin oferece um ótimo exemplo de como uma locação ajuda a construir a identidade de um personagem.
A imponente residência associada a Kim Shin e ao Ceifador utiliza externamente o Yanggwan Hall, uma construção histórica de estilo ocidental ligada ao complexo de Unhyeongung, em Seul.
Para um personagem que atravessou séculos, uma residência arquitetonicamente incomum cria imediatamente uma sensação diferente de colocá-lo em um apartamento contemporâneo qualquer.
É exatamente aí que cenário e personagem começam a se misturar.
Os móveis também contam quem mora ali

Não é preciso mudar de prédio para mudar completamente a história de uma casa.
Observe duas cozinhas.
Uma pode ter eletrodomésticos embutidos, bancada enorme e absolutamente nada fora do lugar. Outra tem panela secando perto da pia, potes em cima da geladeira, sacolas penduradas e utensílios usados todos os dias.
As duas poderiam existir em apartamentos com a mesma metragem.
Mas não parecem pertencer às mesmas pessoas.
Direção de arte trabalha justamente com essas diferenças.
Fotografias revelam relações familiares. Livros indicam interesses. Objetos acumulados sugerem quanto tempo alguém mora naquele lugar. Um apartamento quase vazio pode indicar uma mudança recente ou uma vida pouco enraizada.
Até a quantidade de cadeiras pode importar.
Quando esses elementos funcionam bem, ninguém precisa dizer: “este personagem se sente sozinho”.
A casa já mostrou.
Por isso as diferenças parecem ainda maiores nos doramas
Existe uma Coreia real por trás dessas imagens, mas existe também uma Coreia selecionada pela câmera.
Apartamentos, officetels, villas, casas independentes, hanoks, one-rooms e moradias em terraços realmente existem. Ainda assim, um dorama não é um catálogo imobiliário.
A produção escolhe justamente os espaços que melhor ajudam a contar sua história.
Em um romance entre pessoas de classes sociais diferentes, essa distância pode ser acentuada. Em uma história sobre jovens tentando sobreviver profissionalmente, o apartamento compacto ganha importância. Em um drama familiar, cozinha e mesa de jantar podem valer mais do que a fachada inteira.
É por isso que às vezes parece que dois protagonistas moram em países diferentes mesmo vivendo na mesma cidade.
De certa forma, é exatamente essa a intenção.
Nos doramas, endereço, altura, metragem, móveis, bairro e até a janela pela qual o personagem olha podem funcionar como uma apresentação silenciosa.
Da próxima vez que uma série mostrar a casa de alguém pela primeira vez, vale prestar atenção antes mesmo de o personagem começar a falar.
Talvez a história já tenha começado.
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