Quem assiste a doramas com frequência acaba reconhecendo alguns cenários antes mesmo de saber o que vai acontecer neles. Duas pessoas precisam conversar? Provavelmente haverá uma mesa de café entre elas. Amigos saem do trabalho? Um restaurante pode ser a próxima parada. Alguém está sozinho tarde da noite? A loja de conveniência iluminada na esquina parece estar sempre aberta.
A repetição é tão visível que dá para imaginar que existe uma regra não escrita obrigando todo protagonista a tomar café, comer ramyeon ou ter uma conversa importante diante de um prato de comida.
Não existe.
O que existe é uma combinação interessante entre a vida urbana sul-coreana, a maneira como esses estabelecimentos funcionam socialmente, as necessidades práticas de uma produção televisiva e, em alguns casos, publicidade.
Por isso, esses lugares dizem muito mais sobre os doramas do que parece.
O café funciona quase como uma sala de estar fora de casa

Em muitos doramas, personagens que poderiam simplesmente conversar em casa acabam se encontrando em uma cafeteria. Isso não é apenas uma escolha para deixar a cena mais bonita.
Os cafés ocupam um espaço considerável na vida urbana sul-coreana e podem servir para muito mais do que tomar café.
São locais de encontro, conversa, estudo, trabalho e descanso. Existe até um termo associado às pessoas que passam longos períodos estudando ou trabalhando nesses estabelecimentos: kagongjok, formado a partir da ideia de estudar em cafés.
A cultura se desenvolveu a ponto de existirem também os chamados study cafés, espaços pensados especificamente para quem procura mesas, silêncio e estrutura para estudar.
Em outras palavras, quando um personagem marca um encontro em um café, o dorama está recorrendo a um ambiente perfeitamente reconhecível para o público coreano.
Mas existe outra vantagem.
Uma cafeteria cria um território relativamente neutro.
Imagine dois personagens que acabaram de se conhecer. Levar um deles para a casa do outro pode transmitir uma intimidade que a história ainda não construiu. Colocá-los no escritório limita a conversa ao ambiente profissional. Um café resolve o problema: eles podem ficar frente a frente durante vários minutos sem que o encontro pareça estranho.
Isso é especialmente útil para os roteiristas.
O mesmo espaço pode receber um primeiro encontro, uma conversa entre amigos, uma reunião profissional, uma despedida, uma discussão de casal ou aquele encontro desconfortável entre duas pessoas que claramente prefeririam estar em qualquer outro lugar.
E cada mesa cria uma pequena área privada dentro de um ambiente público.
É quase o cenário perfeito para um dorama.
E os cafés que parecem bonitos demais para serem reais?

Muitos são reais.
Seongsu-dong, em Seul, ajuda a entender por que algumas cafeterias vistas nas séries parecem ter sido construídas especialmente para uma filmagem. A região, conhecida no passado por fábricas, oficinas e galpões, passou por uma transformação que levou antigos espaços industriais a receber cafés, galerias, lojas e complexos culturais.
Em outras partes da capital existem cafés instalados em casas reformadas, hanoks, prédios antigos e espaços concebidos em torno de temas específicos.
Isso produz uma variedade visual enorme.
Para uma equipe de produção, um café pode oferecer algo que um cenário genérico dificilmente conseguiria: personalidade imediata.
Antes mesmo de alguém falar, arquitetura, iluminação, móveis e localização já ajudam a determinar o clima da cena.
Não é coincidência que alguns desses estabelecimentos acabem se tornando conhecidos justamente depois de aparecerem na televisão.
O turismo oficial sul-coreano mantém roteiros dedicados a locais de gravação. Em Seongsu-dong, por exemplo, o Grandpa Factory Café aparece associado a Vincenzo. Já Haenggung-dong, em Suwon, reúne cafés, restaurantes e lojas em uma área utilizada em produções como Our Beloved Summer e Lovely Runner.
A relação, portanto, funciona nos dois sentidos: o dorama encontra um cenário interessante na cidade e, depois, o cenário real pode passar a ser procurado porque apareceu no dorama.
O restaurante permite fazer algo que a sala de reunião não consegue

A presença constante de restaurantes tem outra explicação.
Na Coreia do Sul, comer junto pode ter um peso social importante, e os doramas aproveitam isso muito bem.
Pense na quantidade de situações que uma refeição consegue reunir.
Colegas podem jantar depois do expediente. Um superior pode convidar funcionários. Amigos podem se encontrar. Uma família pode resolver — ou piorar — um conflito à mesa. Um casal pode se conhecer melhor. Alguém pode beber demais e finalmente dizer aquilo que vinha escondendo.
O interessante é que o restaurante permite mostrar relações sem precisar explicá-las diretamente.
Quem chamou quem?
Quem está pagando?
Quem serve a bebida?
Quem cuida da carne na grelha?
Quem está confortável naquela mesa?
Quem claramente não queria estar ali?
Uma refeição pode revelar hierarquia, intimidade, educação, desconforto e proximidade enquanto os personagens fazem algo absolutamente comum: comer.
Por isso as cenas não precisam necessariamente existir por causa da comida.
Às vezes, o verdadeiro assunto da mesa são as pessoas sentadas ao redor dela.
A loja de conveniência ocupa outro lugar nessa história

Se o café é ótimo para encontros planejados e o restaurante funciona bem para relações sociais, a loja de conveniência oferece algo diferente: espontaneidade.
Ela está ali quando quase todo o resto já fechou.
E existem muitas.
Dados referentes a 2024 apontavam 54.835 unidades somadas das quatro grandes redes CU, GS25, 7-Eleven e Emart24 na Coreia do Sul — aproximadamente uma loja para cada mil habitantes.
Isso ajuda a explicar por que elas aparecem com tanta naturalidade nas histórias contemporâneas.
Mas uma loja de conveniência coreana não precisa funcionar apenas como o lugar onde alguém entra, compra alguma coisa e vai embora.
Muitas oferecem refeições prontas, bebidas, ramyeon, gimbap triangular, café e outros produtos que podem ser consumidos ali mesmo ou em áreas próximas. Há estabelecimentos com água quente e equipamentos próprios para preparar macarrão instantâneo.
Comer ramyeon comprado em uma loja de conveniência tornou-se uma imagem tão reconhecível que a própria Organização de Turismo da Coreia apresenta essa experiência em materiais destinados a visitantes estrangeiros.
É justamente essa simplicidade que funciona tão bem nos doramas.
Por que tantas conversas acontecem do lado de fora da loja?

Essa talvez seja uma das imagens mais familiares.
Duas cadeiras. Uma pequena mesa. Bebidas. Alguma coisa para comer. A iluminação forte da loja ao fundo.
Não há garçons, reservas ou cerimônia.
Os personagens simplesmente podem estar ali.
Dramaturgicamente, isso cria uma situação bastante diferente de um restaurante elegante. A conversa parece menos planejada e mais íntima justamente porque o ambiente é cotidiano.
É um bom lugar para dois colegas prolongarem a noite depois do trabalho. Para alguém que não quer voltar para casa ainda. Para amigos dividirem comida barata. Para um personagem encontrar outro por acaso. Para uma conversa começar sem que nenhum dos dois tenha marcado oficialmente um encontro.
Também combina especialmente bem com personagens jovens.
A própria Korea Tourism Organization destaca que lojas de conveniência aparecem com frequência como cenário em dramas, filmes e programas de televisão e relaciona esses espaços ao consumo de refeições rápidas, bebidas e lanches entre gerações mais jovens.
Há ainda uma ligação com uma transformação maior da sociedade coreana.
Em 2024, a Coreia do Sul tinha 8,04 milhões de domicílios formados por apenas uma pessoa, equivalentes a 36,1% dos domicílios gerais. Em Seul, a proporção chegava a 39,9%.
Isso não significa que personagens comem em lojas de conveniência simplesmente porque vivem sozinhos. Seria uma conclusão exagerada.
Mas ajuda a compreender um país em que produtos em porções individuais, refeições rápidas e serviços destinados a rotinas de uma pessoa possuem um mercado enorme. A loja de conveniência faz parte desse ecossistema urbano.
Existe também uma razão muito prática para os doramas gostarem desses lugares

Agora saímos da cultura cotidiana e entramos na produção televisiva.
Um roteiro precisa colocar personagens em algum lugar.
E filmar uma conversa dentro de um estabelecimento comercial pode ser extremamente eficiente.
O espaço já possui identidade visual. Existem mesas, balcões, vitrines, comida, iluminação e movimento. O personagem pode entrar, sentar, pedir alguma coisa, encontrar outra pessoa ou simplesmente esperar.
O ambiente também oferece ações para acompanhar o diálogo.
Em vez de duas pessoas ficarem paradas apenas trocando falas, elas podem preparar comida, servir uma bebida, mexer o café, dividir um prato ou caminhar entre prateleiras.
São pequenos movimentos, mas ajudam a construir uma cena.
Alguns estabelecimentos se tornam ainda mais importantes porque não aparecem apenas uma vez. Viram parte da própria história.
Itaewon Class é um exemplo evidente: o negócio de Park Sae-ro-yi não funciona como decoração; administrar um estabelecimento é parte do conflito da série. Em outros doramas, cafés e restaurantes podem funcionar como locais de trabalho dos personagens ou pontos recorrentes de encontro.
Nesses casos, o comércio deixa de ser simplesmente um cenário.
Ele passa a fazer parte da geografia da história.
E sim: às vezes você está vendo publicidade

Há ainda uma explicação impossível de ignorar: PPL, abreviação de product placement.
Marcas podem aparecer integradas à produção por meio de produtos, carros, alimentos e também estabelecimentos comerciais.
É por isso que, em determinadas séries, a câmera parece interessada demais naquele copo, naquela embalagem ou naquela fachada.
A publicidade inserida em dramas coreanos não é novidade. Há registros de cafeterias, restaurantes, alimentos e outros produtos utilizando aparições em produções como estratégia de divulgação há muitos anos.
O fenômeno ganhou outra dimensão com o alcance internacional dos K-dramas.
Em 2025, uma reportagem do Hankook Ilbo, reproduzida pelo The Korea Times, mostrou como marcas estrangeiras passaram a enxergar as séries coreanas como vitrines para consumidores de vários países. O caso do doce de café Kopiko é particularmente curioso: ele apareceu em produções como Vincenzo, Hometown Cha-Cha-Cha, Mine, Little Women e Yumi’s Cells.
Segundo a reportagem, quando apareceu em Vincenzo, o produto nem sequer era comercializado normalmente na Coreia. A estratégia mirava justamente a audiência internacional.
Esse exemplo é importante porque mostra que nem tudo que aparece repetidamente em um dorama deve ser interpretado como retrato espontâneo da vida coreana.
Às vezes é cotidiano.
Às vezes é uma necessidade do roteiro.
Às vezes é uma escolha estética.
E às vezes é publicidade.
Frequentemente, essas coisas aparecem misturadas.
Como perceber quando o cenário provavelmente está servindo à história

Não existe uma fórmula infalível, mas dá para observar a maneira como o estabelecimento é filmado.
Quando o lugar importa principalmente para a narrativa, a atenção tende a permanecer nos personagens e no que está acontecendo entre eles.
Quando existe uma exposição comercial muito evidente, outros sinais podem aparecer: logotipo enquadrado com clareza, embalagem posicionada de maneira incomumente perfeita, personagem mencionando qualidades específicas de um produto ou câmera permanecendo nele mais tempo do que a história aparentemente exigiria.
Isso não significa que toda marca visível seja necessariamente publicidade paga.
Um espaço real naturalmente possui marcas.
A diferença está justamente em evitar a conclusão automática.
Alguns desses cenários continuam existindo depois que o dorama termina

Aqui surge uma consequência interessante.
O lugar real pode acabar herdando parte da identidade da produção.
A Korea Tourism Organization promove diversos roteiros construídos em torno de locais utilizados em K-dramas. Em Suwon, há trajetos que passam por espaços associados a Our Beloved Summer, Lovely Runner e Extraordinary Attorney Woo. Em outras regiões, restaurantes, cafés, praias, ruas e edifícios que apareceram nas telas são apresentados como atrações ligadas à Hallyu.
O que começou como cenário pode, portanto, transformar-se em destino turístico.
Isso acontece porque cafés e restaurantes possuem uma vantagem sobre muitos outros locais de gravação: o visitante consegue repetir parte da experiência.
Não é apenas olhar para um prédio.
É possível entrar, sentar, pedir alguma coisa e ocupar fisicamente um ambiente parecido com aquele visto na série.
É uma forma bastante concreta de aproximar ficção e turismo.
Por que não colocar todas essas conversas dentro de casa?

Depois de perceber esse padrão, surge uma pergunta interessante: por que os personagens simplesmente não conversam em suas casas?
Porque isso mudaria completamente a relação entre eles.
Uma casa revela intimidade.
Entrar na casa de alguém significa conhecer uma parte privada da vida dessa pessoa: família, condição financeira, hábitos, decoração, bagunça, rotina e relações domésticas.
Um café não exige nada disso.
Dois colegas podem tomar café sem serem íntimos. Duas pessoas podem discutir um assunto profissional. Ex-namorados podem se reencontrar. Um casal pode ter o primeiro encontro.
O restaurante oferece outra camada: transforma a conversa em ocasião.
Já a loja de conveniência reduz quase toda a formalidade.
Os três ambientes parecem semelhantes porque todos envolvem comida ou bebida, mas narrativamente cumprem funções diferentes.
Café: oferece um território neutro para conversar.
Restaurante: transforma relações em situações sociais.
Loja de conveniência: favorece encontros cotidianos, improvisados e informais.
É por isso que trocar um pelo outro pode mudar completamente a sensação de uma cena.
A comida também evita que os personagens precisem dizer tudo

Existe ainda uma característica particularmente boa dessas cenas: pessoas podem demonstrar afeto através de ações pequenas.
Dividir comida, preparar algo para alguém, empurrar um prato para o outro lado da mesa ou perceber que outra pessoa não comeu são gestos visualmente fáceis de compreender.
O roteiro não precisa interromper a história para explicar a relação.
E isso ajuda a entender por que alimentação aparece tantas vezes associada a aproximação, amizade, família e romance.
Não significa que todo gesto envolvendo comida possua um código cultural secreto que o espectador estrangeiro precisa decifrar. Muitas vezes, oferecer comida é simplesmente oferecer comida.
O interessante está na frequência com que esses espaços permitem que relações sejam mostradas enquanto a vida continua acontecendo.
No fundo, os doramas precisam desses lugares porque os personagens precisam deles

Cafés, restaurantes e lojas de conveniência aparecem tanto porque ficam exatamente na fronteira entre o privado e o público.
Não são a casa.
Também não são simplesmente a rua.
São lugares onde alguém pode permanecer.
Essa diferença é importante.
Em uma calçada, os personagens normalmente estão indo para algum lugar. Em uma cafeteria, eles podem passar uma hora conversando. Em um restaurante, existe uma razão natural para permanecerem juntos. Em uma loja de conveniência, podem improvisar uma pequena refeição sem transformar aquilo em um evento.
Os roteiristas ganham tempo e espaço para desenvolver relações.
Os diretores ganham ambientes visualmente interessantes.
Os estabelecimentos podem ganhar exposição.
E o espectador recebe cenas ambientadas em espaços que realmente fazem parte da paisagem urbana sul-coreana.
Por isso a próxima cafeteria que aparecer em um dorama talvez mereça um pouco mais de atenção.
Antes mesmo de os personagens começarem a conversar, o lugar escolhido para colocá-los juntos já pode estar dizendo que tipo de encontro será aquele.
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