Uma dentista que abandona a vida em Seul e conhece um homem que faz praticamente todo tipo de trabalho em uma pequena cidade litorânea. Uma funcionária de hotel que se envolve justamente com o herdeiro do grupo para o qual trabalha. Uma pesquisadora de alimentos cujo chefe é um jovem CEO. Uma empresária milionária que acaba dependendo da ajuda de um oficial do exército.
Quem assiste a muitos doramas provavelmente já percebeu que profissão raramente é apenas a resposta para a pergunta “o que esse personagem faz da vida?”.
Ela costuma dizer de onde ele veio, quanto poder possui, como é tratado pelas outras pessoas e, principalmente, que tipo de distância existe entre ele e o protagonista que está do outro lado da história.
É por isso que colocar duas profissões muito diferentes frente a frente funciona tão bem.
O emprego pode apresentar um personagem antes mesmo de conhecermos sua história

Imagine dois protagonistas.
Um é diretor de uma grande empresa. O outro trabalha temporariamente em uma loja.
Antes de o roteiro explicar qualquer coisa sobre suas famílias, já criamos algumas expectativas: provavelmente eles não ganham o mesmo salário, não circulam pelos mesmos ambientes e não têm a mesma segurança profissional.
Agora troque as profissões.
Ela é médica. Ele está desempregado.
Ela administra uma empresa. Ele é militar.
Ele é advogado. Ela trabalha em um pequeno negócio familiar.
Cada combinação cria uma história diferente porque a profissão entrega ao roteirista uma maneira rápida de estabelecer posição social, rotina, responsabilidades e até os lugares em que aquele personagem pode circular.
Isso é especialmente útil em uma série com tempo limitado.
O trabalho também permite que diferenças abstratas se tornem visíveis.
Não é necessário alguém repetir durante vários episódios que dois personagens pertencem a mundos diferentes quando um deles chega a uma reunião executiva enquanto o outro precisa lidar com a insegurança de não saber se continuará empregado no mês seguinte.
A profissão transforma diferença social em situação dramática.
E essa diferença não nasceu apenas da imaginação dos roteiristas

É importante separar a Coreia do Sul real da Coreia do Sul mostrada nos doramas. Uma série romântica não é um retrato estatístico do país.
Ainda assim, existe um contexto real que ajuda a entender por que emprego, estabilidade e posição profissional rendem tantos conflitos nas histórias coreanas.
O mercado de trabalho sul-coreano possui uma divisão importante entre empregos regulares e não regulares. Trabalhadores regulares tendem a ter maior estabilidade, progressão salarial ligada à senioridade e melhor acesso à proteção social, enquanto trabalhadores não regulares podem enfrentar contratos temporários e perspectivas diferentes de crescimento profissional.
Essa divisão é suficientemente importante para aparecer repetidamente em análises da OCDE sobre o mercado de trabalho do país. A organização também aponta que empregos de serviços de alto valor agregado estão fortemente concentrados na região de Seul.
Ou seja: conseguir determinado emprego não significa somente escolher uma profissão. Pode interferir em renda, estabilidade e possibilidades de ascensão.
Quando um dorama coloca um funcionário temporário diante de um executivo, portanto, o roteiro encontra uma diferença que o público coreano consegue reconhecer imediatamente.
A televisão aumenta, simplifica e romantiza essa distância. Mas não a inventa do zero.
O velho CEO apaixonado pela funcionária é a versão mais óbvia desse recurso

Talvez nenhuma combinação mostre isso melhor do que o romance entre chefe e funcionária.
O clichê ficou tão associado às comédias românticas coreanas que basta apresentar um jovem herdeiro solteiro e uma funcionária carismática para o espectador começar a desconfiar do que vem pela frente.
Pretendente Surpresa brinca diretamente com esse terreno.
Shin Ha-ri (Kim Se-jeong) trabalha na empresa comandada por Kang Tae-moo (Ahn Hyo-seop). A situação se torna ainda mais absurda porque ela vai a um encontro às cegas no lugar da amiga sem saber inicialmente que o homem à sua frente é justamente seu chefe. A própria Netflix classifica a produção entre as séries de ambiente de trabalho.
O emprego faz duas funções ao mesmo tempo.
Primeiro, cria proximidade. Depois do encontro, Ha-ri não pode simplesmente desaparecer da vida de Tae-moo porque os dois pertencem ao mesmo ambiente profissional.
Mas ele também cria distância.
Tae-moo está no topo da hierarquia da empresa. Ha-ri é uma funcionária.
Sem essa diferença, ainda existiria uma comédia de identidade falsa. Com ela, surge outra fonte de tensão: a pessoa que Ha-ri tenta enganar também ocupa uma posição de poder sobre sua vida profissional.
É uma maneira extremamente econômica de construir um romance.
O roteiro não precisa inventar três obstáculos separados quando a profissão consegue produzir vários de uma vez.
Em Sorriso Real, a diferença está dentro do mesmo hotel

Sorriso Real usa uma variação interessante dessa fórmula.
Gu Won (Lee Jun-ho) pertence à família responsável pelo King Group e está envolvido em uma disputa pela herança. Cheon Sa-rang (Lim Yoon-a), por outro lado, construiu sua carreira trabalhando no hotel. A apresentação oficial da Netflix já estabelece o contraste ao definir os dois como um herdeiro e uma funcionária.
Eles podem atravessar os mesmos corredores, entrar no mesmo elevador e trabalhar para a mesma organização, mas não ocupam o mesmo lugar nela.
É justamente aí que a escolha profissional funciona.
Se Sa-rang também fosse herdeira de outro conglomerado, o romance poderia se transformar em uma história sobre duas famílias empresariais.
Se Gu Won fosse apenas outro funcionário do hotel, boa parte da diferença hierárquica desapareceria.
Ao colocá-los em lados tão distintos da mesma empresa, o roteiro consegue aproximá-los fisicamente enquanto mantém uma distância social entre os dois.
O cenário profissional deixa de ser decoração.
Ele cria a relação.
Às vezes a profissão serve para mostrar duas maneiras completamente diferentes de viver

Hometown Cha-Cha-Cha faz algo diferente.
Yoon Hye-jin (Shin Min-a) é dentista e chega a Gongjin depois de viver e trabalhar na cidade grande. Hong Du-sik (Kim Seon-ho), por sua vez, é conhecido por assumir todo tipo de serviço no vilarejo. A própria apresentação brasileira da Netflix resume o encontro como o de uma dentista da cidade grande com um “faz-tudo” que é seu extremo oposto.
Aqui, a diferença profissional não existe principalmente para separar rico e pobre.
Ela ajuda a representar duas formas de enxergar trabalho, sucesso e comunidade.
Hye-jin chega com uma profissão claramente definida e especializada. Du-sik parece estar em toda parte: ajuda moradores, aceita trabalhos diferentes e participa da rotina da comunidade.
A pergunta deixa de ser simplesmente “quanto cada um ganha?”.
Passa a ser: o que significa ter uma vida bem-sucedida?
É uma utilização muito mais interessante da profissão porque o trabalho revela valores.
E isso mostra por que seria simplista dizer que doramas dão empregos diferentes aos protagonistas apenas para criar o clichê “rico se apaixona por pobre”.
Às vezes é isso.
Em outras histórias, a diferença profissional representa personalidades, prioridades ou projetos de vida incompatíveis pelo menos no começo.
Pousando no Amor leva essa distância ao extremo

Poucas diferenças poderiam ser maiores que as de Yoon Se-ri (Son Ye-jin) e Ri Jeong-hyeok (Hyun Bin).
Em Pousando no amor Se-ri é uma herdeira e empresária sul-coreana. Jeong-hyeok é oficial do exército norte-coreano. Depois de um acidente de parapente, ela vai parar na Coreia do Norte e passa a depender da ajuda dele para permanecer escondida. Essa é justamente a premissa oficial apresentada pela Netflix no Brasil.
Nesse caso, as ocupações estão ligadas a algo muito maior.
Os personagens não possuem apenas empregos diferentes. Eles pertencem a estruturas sociais e políticas diferentes.
A profissão de Jeong-hyeok determina sua relação com seus superiores, com os soldados sob seu comando e com o próprio perigo de esconder Se-ri. A posição de Se-ri como empresária e herdeira, por sua vez, está ligada aos conflitos familiares e empresariais que continuam acontecendo na Coreia do Sul.
O romance funciona sobre uma distância que é profissional, familiar, geográfica e política ao mesmo tempo.
É um bom exemplo de como a ocupação pode ser parte da própria arquitetura de uma história.
Trocar as profissões desses personagens não seria um detalhe. Mudaria a série.
Médicos, advogados, promotores e executivos oferecem algo precioso para um roteiro: decisões com consequências

Também existe outro motivo para determinadas profissões aparecerem tanto.
Alguns empregos produzem conflitos quase automaticamente.
Um médico precisa tomar decisões que podem afetar um paciente.
Um advogado pode ganhar ou perder um caso.
Um promotor investiga pessoas e instituições.
Um policial persegue alguém.
Um jornalista descobre uma informação.
Um executivo pode contratar, demitir, promover ou disputar o controle de uma empresa.
Essas profissões permitem que a vida profissional continue interessante mesmo quando o romance sai temporariamente do centro.
Não é coincidência que determinadas ocupações apareçam repetidamente na televisão coreana.
Uma análise divulgada em 2017 pelo Democratic Press Citizens’ Alliance examinou 197 personagens de 49 dramas exibidos por seis emissoras e encontrou uma presença particularmente grande de chaebols, empresários e profissionais ligados à área jurídica. Chaebols e empresários representavam 23% dos personagens analisados, enquanto 19 dos 49 dramas possuíam um protagonista ligado ao setor jurídico segundo o levantamento.
É apenas um recorte de um período específico da televisão coreana, portanto não deve ser tratado como uma fotografia de todos os doramas. Mas ajuda a demonstrar que a impressão de vermos repetidamente determinadas profissões não surgiu do nada.
Há também estudos acadêmicos que encontraram distorções na maneira como o trabalho é representado.
Uma pesquisa publicada no Asian Journal of Communication, que analisou dez anos de dramas sul-coreanos, encontrou uma super-representação de homens em cargos profissionais e gerenciais em relação à realidade social observada pelos pesquisadores.
Os doramas selecionam profissões.
E selecionam justamente aquelas que oferecem boas possibilidades narrativas.
Uma Advogada Extraordinária mostra o que acontece quando a profissão deixa de ser cenário

Há ainda séries em que retirar a profissão significa praticamente retirar a história.
Em Uma Advogada Extraordinária, Woo Young-woo (Park Eun-bin) é uma jovem advogada recém-contratada por um grande escritório. Os casos jurídicos não ficam apenas acontecendo atrás da protagonista enquanto sua vida pessoal avança.
Eles apresentam problemas que ela precisa interpretar e resolver.
Nesse tipo de produção, a profissão cumpre outra função: cria uma estrutura capaz de gerar histórias diferentes dentro da mesma série.
Um novo processo pode apresentar novos personagens, conflitos e questões sociais sem que seja necessário abandonar o elenco principal.
É a mesma vantagem encontrada, de maneiras diferentes, em dramas médicos, policiais e jornalísticos.
O hospital traz novos pacientes.
O escritório recebe novos casos.
A delegacia recebe novas investigações.
A redação recebe novas pautas.
A profissão vira uma fábrica natural de acontecimentos.
A diferença profissional também resolve um problema dos romances: como fazer duas pessoas se encontrarem várias vezes?

Um casal precisa de oportunidades para conviver.
Essa parece uma questão pequena, mas é um dos problemas básicos de qualquer romance.
Duas pessoas podem se conhecer por acaso uma vez. Para construir uma série inteira, porém, o roteiro precisa justificar o segundo encontro, o terceiro, o quarto e todos os seguintes.
O trabalho é uma solução eficiente.
Chefe e funcionária precisam voltar à empresa no dia seguinte.
Médicos dividem plantões.
Advogados trabalham no mesmo processo.
Jornalistas disputam uma pauta.
Uma secretária acompanha a agenda do executivo.
Colegas participam da mesma reunião.
Mesmo quando os protagonistas começam em mundos profissionais completamente diferentes, o roteiro pode usar um contrato, projeto, cliente, investigação ou problema específico para aproximá-los.
Depois disso, a hierarquia profissional fornece novos obstáculos.
É quase uma máquina de produzir cenas.
Mas os doramas não mostram o mercado de trabalho exatamente como ele é

Essa diferença é importante.
Ver muitos médicos, advogados, CEOs e herdeiros na televisão não significa que essas sejam as profissões mais comuns da Coreia do Sul.
Na vida real, o mercado de trabalho é muito mais amplo e menos glamouroso.
A OCDE destaca, por exemplo, a presença significativa de pequenas e microempresas e do trabalho autônomo na economia sul-coreana, além da já mencionada divisão entre empregos regulares e não regulares.
A televisão faz uma seleção.
Um CEO de conglomerado permite falar de dinheiro, família, sucessão e poder.
Um promotor permite investigar crimes e corrupção.
Um cirurgião pode enfrentar uma emergência diferente a cada episódio.
Essas profissões não precisam ser estatisticamente comuns para serem narrativamente convenientes.
É o mesmo motivo pelo qual séries policiais de qualquer país mostram uma quantidade de assassinatos que não corresponde à rotina de uma cidade comum.
Ficção escolhe aquilo que produz conflito.
Até o escritório comum ganha outra importância nos doramas

Existe, porém, um lado menos extravagante dessa relação entre profissão e história.
Doramas como Misaeng ficaram conhecidos justamente por olhar para o cotidiano corporativo sem precisar transformar todo funcionário em herdeiro de conglomerado.
O ambiente profissional pode revelar hierarquia, linguagem, relações entre superiores e subordinados e formas de convivência que vão muito além do salário.
Um estudo acadêmico publicado em 2026 chegou a utilizar Misaeng como ferramenta para discutir cultura e comunicação nos locais de trabalho coreanos com trabalhadores migrantes, justamente porque a série oferece situações que permitem observar relações profissionais e formas de comunicação.
Isso ajuda a entender outra característica dos doramas.
O emprego pode ser cenário de fantasia romântica, mas também pode ser usado para discutir algo reconhecível na vida cotidiana.
Competição por vagas, insegurança profissional, pressão hierárquica, jornadas longas e dificuldade de conciliar trabalho e vida pessoal são temas que encontram correspondência em questões reais do mercado de trabalho sul-coreano.
O que muda é o quanto cada roteiro decide exagerar, romantizar ou observar esse mundo.
Então por que os protagonistas têm profissões tão diferentes?

Porque uma profissão bem escolhida economiza dezenas de explicações.
Ela pode informar classe social, rotina, poder, educação, ambição e estabilidade. Pode colocar duas pessoas no mesmo ambiente ou separá-las por uma hierarquia. Pode produzir novos conflitos a cada episódio e ainda oferecer uma razão plausível para os protagonistas continuarem se encontrando.
Por isso, a diferença funciona tão bem no romance.
Dentista e faz-tudo não representam a mesma relação que herdeiro e funcionária.
Empresária e militar não produzem a mesma história que advogado e colega de escritório.
E CEO e pesquisadora não criariam a mesma dinâmica se ambos ocupassem exatamente a mesma posição dentro da empresa.
No fim, talvez seja justamente por isso que sabemos tão cedo o que tantos personagens de doramas fazem da vida.
A profissão não foi colocada ali apenas para preencher a ficha do personagem.
Muitas vezes, ela já começou a contar a história antes mesmo de o romance começar.
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