Coreia do Sul

O que são chaebols nos doramas coreanos?

O que são chaebols nos doramas coreanos?

Um herdeiro de uma família bilionária, uma empresa que parece controlar metade do país, irmãos disputando quem ficará no comando e pais que tratam casamento quase como uma decisão empresarial. Quem assiste a doramas há algum tempo provavelmente já encontrou uma história assim.

É nesse tipo de trama que uma palavra coreana aparece com frequência: chaebol.

Nos doramas, o termo costuma ser associado ao rapaz rico que vai herdar a empresa da família. Só que seu significado é bem maior. Chaebol não é simplesmente uma maneira coreana de dizer “pessoa rica” e também não é o nome dado a qualquer empresário bem-sucedido.

O termo está ligado a uma característica importante da própria economia da Coreia do Sul: os grandes grupos empresariais formados por diversas companhias e historicamente associados ao controle de uma mesma família.

Entender essa diferença faz várias histórias de K-dramas ganharem outro sentido.

Afinal, o que significa chaebol?

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De maneira simples, chaebol é o nome usado para grandes conglomerados empresariais sul-coreanos formados por várias empresas relacionadas e tradicionalmente controlados por uma família ou por seus sucessores.

Samsung, Hyundai, LG e SK estão entre os exemplos mais conhecidos quando se fala nesse modelo empresarial.

A estrutura pode ser muito maior do que uma única companhia. Um mesmo grupo pode reunir negócios de setores completamente diferentes, por meio de diversas empresas afiliadas.

A Korea Fair Trade Commission (KFTC), órgão responsável pela política de concorrência do país, trabalha com o conceito de “business group” para identificar conjuntos de empresas que estão, na prática, sob o controle de uma mesma pessoa ou entidade. Os grandes grupos recebem atenção específica justamente pelo peso que podem exercer sobre a economia e a concorrência.

É daí que vem uma diferença importante para quem aprendeu a palavra assistindo a doramas:

o chaebol é o grupo empresarial — não necessariamente o herdeiro bonito de terno que aparece na tela.

No uso cotidiano e principalmente na cultura popular, porém, é comum encontrar expressões como “chaebol heir”, ou herdeiro de chaebol. Nos doramas, essa associação ficou tão forte que chamar determinado personagem simplesmente de “chaebol” muitas vezes já faz o espectador entender que ele pertence a uma família extremamente rica ligada a um conglomerado.

Então o protagonista rico de um dorama não é automaticamente um chaebol

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Essa distinção evita uma confusão bastante comum.

Um personagem pode ser milionário, dono de uma empresa, médico de família rica, celebridade ou empresário bem-sucedido sem pertencer a uma família chaebol.

O elemento decisivo não é apenas ter muito dinheiro.

Quando um dorama apresenta uma família proprietária ou controladora de um enorme grupo empresarial, com várias empresas, gerações envolvidas nos negócios e uma disputa pela sucessão do comando, aí estamos muito mais próximos daquilo que o termo representa na Coreia do Sul.

Por isso aparecem tantas referências a segunda ou terceira geração.

Um personagem descrito como herdeiro chaebol de terceira geração pertence, em termos familiares, à terceira geração daquele império empresarial. Ele não começou necessariamente o negócio que administra ou herdará: nasceu dentro de uma estrutura construída pelas gerações anteriores.

Isso explica outro detalhe recorrente nos roteiros. O avô ou pai pode continuar ocupando a presidência do grupo enquanto filhos e netos dirigem empresas afiliadas, departamentos ou subsidiárias e competem por espaço dentro da família.

A disputa pelo cargo deixa então de ser apenas “quem vai ficar rico?”. Todos já são ricos.

A pergunta passa a ser: quem terá poder sobre o grupo?

Por que os chaebols aparecem tanto nos K-dramas?

chaebol dos doramas 3

Porque esse ambiente resolve vários problemas de roteiro de uma vez.

Dinheiro é apenas o mais óbvio.

Uma família ligada a um conglomerado permite criar conflitos envolvendo poder, sucessão, reputação, casamento, diferenças sociais, relações entre pais e filhos e disputas entre irmãos. Também coloca vida familiar e vida profissional dentro do mesmo conflito.

É uma combinação especialmente útil para romances.

Quando uma pessoa comum se apaixona por um herdeiro, por exemplo, o obstáculo pode não ser simplesmente a diferença entre alguém pobre e alguém rico. A família pode enxergar o relacionamento como algo capaz de interferir na sucessão, na imagem do grupo ou nas alianças construídas ao redor dos negócios.

É daí que surge outra figura bastante conhecida dos doramas: o pai, a mãe ou o avô que tenta controlar com quem o herdeiro se relaciona.

Na ficção, esse conflito pode ser exagerado até chegar ao casamento arranjado, à ameaça de deserdar alguém ou à tentativa de separar o casal.

O chaebol funciona, portanto, como algo muito mais interessante narrativamente do que uma conta bancária gigantesca. Ele coloca o personagem dentro de uma estrutura familiar da qual nem sempre é fácil escapar.

Pousando no Amor mostra bem a diferença entre “rica” e “herdeira de chaebol”

Pousando no Amor

Yoon Se-ri, interpretada por Son Ye-jin em Pousando no Amor, é um ótimo exemplo porque sua condição social não existe apenas para mostrar uma protagonista cercada de luxo.

Se-ri pertence à família do Queen’s Group e é apresentada como herdeira chaebol de terceira geração. Ao mesmo tempo, construiu seu próprio negócio.

Antes mesmo de seu acidente de parapente levá-la à Coreia do Norte, existe um conflito de sucessão envolvendo a família. Seus irmãos também estão ligados ao grupo e a decisão sobre quem assumirá uma posição de maior poder interfere diretamente nas relações entre eles.

Isso muda a leitura da personagem.

Se o roteiro dissesse apenas que Se-ri é milionária, boa parte dessa dinâmica desapareceria. Ser uma herdeira chaebol coloca sua riqueza dentro de uma estrutura de família, empresa e sucessão.

E é exatamente essa estrutura que tantos outros doramas aproveitam de maneiras diferentes.

Em Rainha das Lágrimas, empresa e família praticamente ocupam o mesmo espaço

rainha das lagrimas

Rainha das Lágrimas oferece outro exemplo fácil de reconhecer.

Hong Hae-in, personagem de Kim Ji-won, é uma herdeira chaebol de terceira geração e CEO da loja de departamentos pertencente ao Queens Group. Outros integrantes da família também ocupam posições dentro dos negócios.

O resultado é um ambiente em que problemas familiares e empresariais dificilmente permanecem separados.

Uma decisão tomada dentro da companhia pode afetar a família. Uma disputa familiar pode alterar quem controla determinada parte do grupo.

Esse tipo de relação ajuda a explicar por que tantas famílias fictícias de doramas parecem realizar reuniões familiares como se fossem reuniões de conselho — e reuniões empresariais como se fossem discussões de família.

Secretária Kim também usa o arquétipo, mas para outra finalidade

O Que Houve com a Secretária Kim? — dorama
Imagem: divulgação oficial

Lee Young-joon, interpretado por Park Seo-joon em O Que Houve com a Secretária Kim?, representa uma versão muito reconhecível do executivo criado dentro de uma família empresarial poderosa.

Nesse caso, o ambiente corporativo é fundamental para a comédia romântica.

O personagem ocupa uma posição privilegiada desde o começo, e a diferença entre a vida dele e a de Kim Mi-so ajuda a construir a dinâmica da história.

É uma utilização diferente daquela encontrada em tramas mais interessadas em sucessão empresarial. Isso também mostra por que “dorama de chaebol” não constitui exatamente um gênero.

O mesmo elemento pode aparecer em romance, comédia, melodrama, suspense ou histórias de vingança.

O chaebol dos doramas e o chaebol da vida real não são a mesma coisa

chaebol dos doramas e o chaebol da vida real

Aqui está provavelmente a distinção mais importante.

Chaebols existem na Coreia do Sul. Os personagens de K-dramas são representações ficcionais desse universo.

Na realidade, os grandes grupos empresariais estão ligados a questões muito mais complexas de governança, concentração econômica, participação acionária, empresas afiliadas e regulamentação.

A própria Korea Fair Trade Commission mantém regras específicas para grandes grupos empresariais. Entre os assuntos regulados estão estruturas de participação entre empresas afiliadas, divulgação de informações, garantias de dívidas e transações entre partes relacionadas.

Existe uma razão econômica para essa fiscalização: grupos suficientemente grandes podem concentrar uma parcela considerável de poder econômico.

Os doramas pegam apenas partes desse contexto e as transformam em histórias mais fáceis de acompanhar.

O conselho de administração vira cenário para uma disputa entre irmãos. A sucessão empresarial vira conflito entre pai e filho. A diferença social vira obstáculo para um romance. A estrutura de um conglomerado vira a razão para vários membros da mesma família comandarem empresas diferentes.

Funciona muito bem na ficção, mas não deve ser interpretado como retrato literal do funcionamento de todos os conglomerados ou de todas as famílias empresariais sul-coreanas.

Chaebol é a mesma coisa que empresa familiar?

chaebol dos doramas 1

Não exatamente.

Existem empresas familiares em muitos países. O que torna o termo chaebol particularmente associado à Coreia do Sul é a combinação histórica entre famílias controladoras e enormes grupos compostos por empresas afiliadas.

Também existem grandes empresas coreanas que não correspondem simplesmente ao estereótipo apresentado nos doramas.

Por isso, traduzir chaebol apenas como “família rica” elimina uma parte importante do significado.

“Conglomerado empresarial familiar sul-coreano” chega mais perto do conceito, embora nenhuma tradução curta consiga carregar todas as particularidades históricas e econômicas da palavra.

E por que sempre existe um “herdeiro chaebol”?

chaebol dos doramas

Porque é justamente a segunda parte da expressão que costuma desaparecer nas legendas, conversas e comentários sobre doramas.

Tecnicamente, é mais preciso pensar nele como herdeiro de uma família que controla um chaebol.

Mas a popularidade desse arquétipo tornou “chaebol” quase uma descrição de personagem entre fãs de K-dramas.

Quando alguém diz “é aquele dorama em que o protagonista é um chaebol”, dificilmente está tentando explicar a estrutura societária da empresa dele. A frase geralmente significa algo como:

“Ele pertence a uma família extremamente rica que controla um grande grupo empresarial.”

E provavelmente haverá alguma confusão envolvendo a família.

Algumas expressões ficam mais fáceis depois que você entende isso

chaebol dos doramas 2

Da próxima vez que um dorama apresentar um personagem como “chaebol de terceira geração”, uma disputa entre irmãos pelo grupo empresarial ou um avô decidindo quem será seu sucessor, existe um contexto por trás daquela velha história do herdeiro rico.

Chaebol não significa simplesmente milionário.

É uma palavra associada a grandes conglomerados que tiveram — e continuam tendo — enorme presença na economia sul-coreana. Os K-dramas transformaram esse contexto empresarial em um de seus recursos narrativos mais reconhecíveis.

Por isso o personagem pode mudar, a empresa fictícia pode receber outro nome e até o gênero do dorama pode ser completamente diferente.

Ainda assim, quando surge uma família bilionária discutindo quem ficará no comando do grupo, já sabemos mais ou menos de onde aquela história está partindo.

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