Os SUPERtontos (The WONDERfools)  combina dois caminhos criativos que ajudam a explicar seu tom: a direção de Yoo In-sik, associada ao equilíbrio entre espetáculo e desenvolvimento emocional, e a participação de Huh Dah-joong na adaptação do roteiro de Extreme Job. A conexão com o filme sul-coreano existe, mas precisa ser apresentada com precisão: Huh Dah-joong foi um dos roteiristas envolvidos em Extreme Job, ao lado de Moon Chung-il, Bae Se-young e Lee Byeong-heon, e não seu único autor.

Na série da Netflix, essa experiência aparece menos como uma repetição direta do filme e mais como uma afinidade de construção. Em vez de agentes disfarçados administrando uma lanchonete de frango que se torna um sucesso, a produção acompanha moradores desajustados de Haeseong City que recebem superpoderes em 1999, em meio à ansiedade coletiva com a chegada do fim do mundo. A premissa muda, mas o mecanismo cômico permanece reconhecível: uma missão extraordinária é entregue a pessoas despreparadas, limitadas e muito mais preocupadas com problemas imediatos do que com a imagem clássica de um herói.The WONDERfools, 2024 PARK EUN BIN FAN CONCERT 〈EUNBIN NOTE: DIVA〉, Extreme Job

Uma equipe criativa que combina escala e intimidade

Os SUPERtontos tem Yoo In-sik na direção, Huh Dah-joong no roteiro e Kang Eun-kyung como criadora. A série também reúne Park Eun-bin, Cha Eun-woo, Choi Dae-hoon, Im Seong-jae, Kim Hae-sook e Son Hyun-joo no elenco. Essa composição já indica que a produção não foi concebida apenas como uma aventura de super-heróis, mas como uma comédia de conjunto, em que o funcionamento do grupo é tão importante quanto a ameaça enfrentada.

O ponto de contato mais seguro está na maneira como o humor pode nascer da situação, da personalidade e da progressão do caos. Já Yoo In-sik entra em outra camada: a organização do tom, o uso da ação, a condução das relações e o espaço concedido à vulnerabilidade dos personagens. A série resulta, portanto, de uma combinação de funções, não da assinatura isolada de um único nome.

A conexão real com Extreme Job: quando a missão sai do controle

Em Extreme Job, policiais montam uma operação disfarçada em uma lanchonete de frango. O problema é que o negócio se torna um sucesso e começa a interferir na investigação. A comédia não depende apenas de uma sequência de piadas, mas do contraste entre o objetivo oficial da equipe e aquilo que passa a dominar sua rotina.

Os SUPERtontos trabalha com lógica semelhante. Seus protagonistas recebem habilidades extraordinárias, mas isso não os transforma imediatamente em figuras preparadas para salvar a cidade. Eles precisam lidar com poderes imperfeitos, decisões improvisadas e dificuldades práticas enquanto enfrentam ameaças maiores do que sua experiência permite administrar.

Extreme Job
Imagem Oficial da Netflix

O humor, nesse modelo, se organiza em uma cadeia de consequências:

  • uma missão grandiosa é apresentada;
  • personagens despreparados tentam cumprir o objetivo;
  • as limitações pessoais atrapalham a execução;
  • uma solução improvisada cria um problema ainda maior;
  • o grupo precisa transformar o próprio erro em estratégia.

Por que a série aposta em heróis desajustados

A escolha por um grupo de pessoas comuns modifica a própria linguagem do gênero de super-heróis. Em narrativas tradicionais, o poder costuma confirmar uma vocação: o personagem descobre uma habilidade e passa a ocupar um lugar especial. Em The WONDERfools, a transformação parece produzir o efeito contrário. As habilidades tornam ainda mais visíveis as inseguranças, os defeitos e a falta de preparo dos protagonistas.

A Netflix apresenta Chae-ni, Gyeong-hun e Ro-bin como integrantes de um grupo com capacidades diferentes e pouco convencionais. As primeiras críticas destacaram que a série ganha força quando os personagens atuam como um conjunto caótico. Cha Eun-woo ocupa uma posição mais séria em contraste com integrantes mais descontrolados, o que ajuda a criar ritmo por meio de reações diferentes diante do mesmo perigo.

Essa estrutura também permite que a ação seja distribuída. Em vez de concentrar a narrativa em um protagonista que resolve tudo, a série pode transformar cada limitação em uma peça da solução. Um poder que parece ridículo fora de contexto pode se tornar útil em uma circunstância específica; uma característica tratada como fraqueza pode contribuir para o funcionamento do grupo.

Esse princípio já estava presente em Extreme Job, cujo diretor Lee Byeong-heon ressaltou a importância do equilíbrio entre os cinco policiais. Como não havia um protagonista único, o filme dependia da interrupção, da reação, do contraste e da complementaridade entre os integrantes. Em The WONDERfools, esse recurso é deslocado para o universo dos superpoderes.

O humor de personagens associado a Huh Dah-joong

A experiência de Huh Dah-joong em Extreme Job ajuda a compreender a expectativa em torno do roteiro de The WONDERfools, especialmente no uso de diálogos e personalidades. Entrevistas sobre o filme destacaram que sua comédia dependia bastante das falas e da individualidade dos personagens, inclusive porque boa parte da história se desenvolvia em um espaço limitado: a lanchonete.

Em The WONDERfools, essa lógica encontra um novo campo de exploração. Os protagonistas não são apenas pessoas com poderes diferentes; são pessoas que interpretam esses poderes de maneiras distintas. O conflito pode surgir tanto do que cada habilidade faz quanto da dificuldade de coordenar indivíduos que não compartilham a mesma visão sobre responsabilidade, risco ou heroísmo.

Da incompetência aparente à competência inesperada

Um dos mecanismos centrais de Extreme Job é o contraste entre a imagem de fracasso da equipe e a competência que aparece em momentos decisivos. Os policiais parecem pouco eficientes até que suas habilidades profissionais vêm à tona. A revelação funciona simultaneamente como avanço da ação e como gag, porque o espectador percebe que aqueles personagens não eram exatamente o que pareciam.

Os SUPERtontos adapta esse mecanismo para os poderes e para as inseguranças pessoais. A habilidade pode ser difícil de controlar, pouco impressionante ou até ridícula fora da situação adequada. Sua utilidade depende menos da grandiosidade individual e mais da capacidade de encontrar uma aplicação criativa em conjunto com os demais poderes.

Esse tipo de arco evita uma transformação instantânea. Os personagens não precisam abandonar completamente seus defeitos para se tornarem úteis. O que muda é a maneira como o grupo passa a reconhecer essas características e a trabalhar com elas. O desajuste, que inicialmente parece impedir qualquer ação coordenada, pode se converter em uma forma própria de cooperação.

O possível papel de Yoo In-sik no equilíbrio entre ação e emoção

Yoo In-sik declarou que preferiu trabalhar com poderes mais “aterrados” e com uma abordagem visual menos chamativa, evitando efeitos excessivamente cartunescos. Essa escolha é importante para o tom da série: quanto mais os poderes parecem pertencer ao espaço cotidiano de Haeseong City, mais a comédia pode se concentrar nas reações humanas a eles.

SUPERtontos capa

Esse equilíbrio também se relaciona ao trabalho anterior de Yoo In-sik em produções como Dr. Romantic e Extraordinary Attorney Woo. O material disponível sobre sua trajetória associa essas obras a personagens que enfrentam limitações pessoais e encontram força em relações de confiança. Em Extraordinary Attorney Woo, humor, casos episódicos e desenvolvimento emocional conviviam com uma protagonista cuja diferença influenciava a forma como era vista pela sociedade, sem resumir toda a sua personalidade.

Em The WONDERfools, a fantasia parece cumprir uma função próxima: tornar visíveis medos, desejos e fragilidades. A proteção de Haeseong City é o objetivo externo, mas a formação da equipe oferece o eixo emocional. Os protagonistas precisam descobrir não apenas como usar suas habilidades, mas como aceitar que sua maneira de agir não corresponde ao modelo tradicional de heroísmo.

O que a série faz com essa combinação

Os SUPERtontos (The WONDERfools)  usa a linguagem de uma equipe de super-heróis para falar de pertencimento. A pergunta central deixa de ser “quem é o mais poderoso?” e passa a ser “como pessoas tão diferentes conseguem funcionar juntas?”. Essa mudança dá ao grupo uma função narrativa mais importante do que a simples distribuição de poderes.

As críticas que destacam temas como equipe, família encontrada, solidão, medo e aceitação das próprias falhas ajudam a compreender por que a série não depende apenas do ritmo de ação. O caos é o ponto de partida, mas a cooperação é o que dá direção a ele. Conforme os personagens passam a confiar uns nos outros, suas limitações deixam de ser apenas fonte de piada e se tornam parte de uma identidade coletiva.

A produção também se diferencia de uma abordagem mais solene do gênero. O tom “B-grade”, associado à série, não significa ausência de ambição, mas uma escolha por heróis imperfeitos, situações exageradas e soluções pouco glamorosas. O heroísmo aparece sem apagar a trapalhada. A ação pode ser importante sem transformar os personagens em figuras infalíveis.

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